sábado, 30 de abril de 2011

Amado Jorge! - Revista Conhecimento Prático Literatura Edição 33 - 2010 Parte I

Fascinante, a trajetória de Jorge Amado confunde-se com a própria história cultural do século XX

"Eu sou muito otimista, muito. O Brasil é um país com uma força enorme. Nós somos um continente, meu amor. Nós não somos um paisinho, nós somos um continente, com um povo extraordinário."

João Amado Faria leva seu filho adolescente de volta para o internato, após o período de férias. Despedem-se e João vai embora, acreditando ter deixado o filho na segurança do colégio de padres. Vai descobrir seu engano somente alguns meses mais tarde, ao saber que o garoto, na verdade, está na fazenda do avô, aonde chegou após uma longa viagem solitária pelo interior da Bahia. O jovem é levado de volta para o colégio e, depois desse episódio, desiste das fugas materiais e passa a se concentrar numa artimanha mais elaborada de fuga e protesto: a escrita. Esse jovem é Jorge Amado de Faria. O nosso Jorge Amado.

Nascido numa fazenda no interior do distrito de Itabuna e tendo sido um aluno exemplar, Jorge Amado é aprovado entre os primeiros colocados na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, estado para o qual se transfere em 1930, então com 18 anos. Já no ano seguinte vê seu primeiro romance, O país do carnaval, ser publicado. Com tiragem de mil exemplares, o livro foi bem recebido por público e crítica. Após uma viagem pela zona cacaueira da Bahia, Jorge Amado escreve e publica o romance Cacau, em 1933. Nessa época, conhece Graciliano Ramos* , com quem travaria uma amizade duradoura. No ano seguinte, publica o romance Suor. Nessa época, Jorge Amado não vivia exclusivamente de literatura; foi uma fase de diversos trabalhos como jornalista e editor para várias revistas cariocas.

Nos seus primeiros anos no Rio de Janeiro, Jorge Amado entra em contato, provavelmente influenciado pelo círculo de jovens intelectuais da universidade, com uma ideologia que mudaria seu destino: o comunismo*. A ideologia e a militância que o acompanhariam por toda vida e seriam determinantes na sua trajetória. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), Jorge Amado sofre sua primeira prisão política já no ano de 1936, acusado de participar de um levante ocorrido em Natal, no ano anterior. Nesse mesmo ano recebe o Prêmio Graça Aranha, oferecido pela Academia Brasileira de Letras, por seu novo romance, Mar Morto.

No ano seguinte tem sua primeira experiência com cinema, atuando no papel de pescador e colaborando no roteiro do filme Itapuã, de Ruy Santos. Durante uma viagem pela América Latina e os Estados Unidos, é publicado no Brasil o livro Capitães da areia. No seu retorno do exterior, Jorge Amado encontra um momento delicado da história política brasileira: ele pisa em solo nacional durante a agitação decorrente do golpe político de Vargas e instauração do Estado Novo* decorrente do golpe político de Vargas e, diante disso, tenta fugir viajando pelo país, mas é preso rapidamente em Manaus. Seus livros são considerados subversivos e mais de 1.600 exemplares são queimados em praça pública em Salvador, segundo registros militares. É libertado em 1938 e mantém intensa atividade política, posicionando-se publicamente contra a tortura de presos e a desarticulação do Partido Comunista.

No ano de 1939 a obra de Jorge Amado já começa a viajar o mundo, sendo traduzida para o inglês e para o francês. Na mesma época, Albert Camus, escritor e futuro Nobel de Literatura, publica um artigo elogioso a Jubiabá no jornal Alger Républicain. Jorge Amado decide, então, escrever uma biografia de Luis Carlos Prestes, a fim de iniciar uma campanha pela sua anistia. Apesar de ter sido editado em espanhol e circular oficialmente apenas no Uruguai e na Argentina, o livro chega clandestinamente ao Brasil. A obra acaba sendo um pretexto para que Jorge Amado seja preso novamente, mas dessa vez por pouco tempo. As autoridades decidem confiná-lo em Salvador, numa espécie de liberdade condicional e vigiada, mas esse regime não dura muito e, em meados de 1945, o escritor é preso novamente.

Nas eleições de 1945, Jorge Amado é eleito deputado federal, com 15.315 votos. No seu mandato, propõe a regulamentação da Lei de Liberdade de Culto, vigente até hoje. Nesse mesmo ano, já divorciado de sua primeira esposa, Matilde Garcia Rosa, Jorge Amado conhece aquela que viria a ser a companheira de uma vida inteira, a fotógrafa, escritora e também ativista política Zélia Gattai. Nesse período, publica Bahia de todos os santos, Terras do sem ‑ m, Seara vermelha e Homens e coisas do Partido Comunista.

Nas suas viagens e atividades culturais e políticas, Jorge Amado trava amizade com o poeta Pablo Neruda e sua esposa e com o fotógrafo francês Pierre Verger, radicado na Bahia por influência da leitura de Jubiabá. Em 1947, é editado O amor de Castro Alves e a produtora de cinema Atlântida compra os direitos de Terras do sem ‑ m. Ainda no cinema, Jorge Amado escreve o argumento de O cavalo número 13 e Estrela da manhã. Nasce seu primeiro filho, João Jorge. Futuramente, por ocasião do primeiro aniversário da criança, Jorge Amado escreve O gato malhado e a andorinha sinhá. No entanto, a história infantil só seria publicada no final dos anos 70.

Com o cancelamento do registro do Partido Comunista, em 1948, o mandato de Jorge Amado é cassado e seus livros são novamente considerados materiais subversivos e proibidos. O escritor exila-se com a família na Europa, uma vez que sua entrada nos EUA é vetada devido à vigência da lei anticomunista naquele país - até 1952, quando volta ao Brasil e fixa residência no Rio de Janeiro. Ao final dos anos 1950, Jorge Amado abandona a militância política, declarando que seu engajamento era prejudicial a sua atividade literária.   


Jorge e o escritor português José Saramago
Durante o exílio voluntário na Europa, conhece Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir e Pablo Picasso. Baseado nas observações e experiências de suas viagens pelos países comunistas, Jorge Amado escreve O mundo da paz, no ano de 1950. Ao ser lançado no Brasil, o livro enquadra o escritor na Lei de Segurança. Anos mais tarde, ele proibiria reedições de O mundo da paz, por acreditar que a obra era uma visão desatualizada da realidade dos países socialistas. Nasce, na Tchecoslováquia, sua filha Paloma, no mesmo ano em que Jorge Amado recebe em Moscou o Prêmio Internacional Stalin.

Em 1953, tendo notícia da doença de Graciliano Ramos, Jorge Amado retorna ao Brasil às pressas, para ficar ao lado do amigo. Graciliano Ramos morre pouco tempo depois de sua chegada e é Jorge Amado quem faz o discurso no seu enterro.

Com letra de Jorge Amado e música de Cláudio Santoro, é lançada pela Ricordi brasileira, em 1956, a partitura de Não te digo adeus. Não seria a única aparição do escritor no mundo da indústria fonográfica. Em 1958 - juntamente ao lançamento do grande sucesso Gabriela - sai o disco Canto de amor à Bahia, com leituras de Jorge Amado e música de Dorival Caymmi.

Em 6 de abril de 1961, Jorge Amado é eleito por unanimidade para substituir Otávio Mangabeira na cadeira número 23 da Academia Brasileira de Letras. No mesmo mês, estreia a primeira adaptação de Gabriela para a TV, na Tupi. Para o cinema, a Metro Goldwin adquire os direitos de filmagem dessa obra. Anos mais tarde, porém, o escritor compraria os direitos de volta.

Em meados das comemorações dos seus 30 anos de atividade literária, é publicado Os velhos marinheiros, obra que comporta as novelas A morte e a morte de Quincas Berro D'água e A completa verdade sobre as discutidas aventuras do comandante Vasco Moscoso de Aragão, capitão de longo curso - esta última teria, em 1965, os direitos de filmagem adquiridos pela Warner Brothers. Curiosamente, também em 1961 Jorge Amado é convidado pelo então presidente Juscelino Kubitschek para ser embaixador do Brasil na República Árabe Unida. Ele recusa.

No lançamento de Dona Flor e seus dois maridos, em 1966, são necessários dois dias de sessão de autógrafos em Salvador, devido ao grande público presente. Nos anos de 1967 e 1968, Jorge Amado é candidato ao Prêmio Nobel de Literatura. Conhece o cineasta Roman Polanski, fã do autor, que o visita na Bahia.

Anos mais tarde, conheceria o futuro prêmio Nobel de Literatura, Gabriel García Márquez, durante uma viagem à Espanha. Nos anos 1970, Jorge Amado já é avô de duas crianças e lança mais uma obra: Tereza Batista cansada da guerra. O escritor também se torna, pela primeira vez dentre muitas que surgiriam, tema de enredo de escola de samba. Também é tema de um documentário feito pelo cineasta Glauber Rocha.

Em 1975 estreia na Rede Globo o maior sucesso do escritor na TV e um dos maiores sucessos da teledramaturgia, a telenovela Gabriela, cravo e canela, dirigida por Walter Avancini e com Sônia Braga no papel título. A atriz ainda viria a figurar outras personagens de Jorge Amado, como Dona Flor, no filme de Bruno Barreto, lançado em 1976. No ano seguinte, com imenso alarde publicitário, é lançado o romance Tieta do Agreste, que viria a se tornar outra novela de sucesso alguns anos mais tarde, pela TV Globo.

Em 13 de maio de 1978, após filhos, netos e anos de união pública, Jorge Amado e Zélia Gattai oficializam seu casamento; a cerimônia acontece em Itapuã. No ano seguinte sai o livro Farda fardão camisola de dormir e estreia na Brodway o musical Saravá, baseado em Dona Flor e seus dois maridos.

Já nos anos 80, o escritor é homenageado no centenário da cidade de Ilhéus com uma placa e uma escultura de bronze, além de nome de rua. É entrevistado em Salvador por Mario Vargas Llosa, que, na época, apresentava um programa de TV no seu país. Em 1982, Jorge Amado passa a ser nome de rua também em Itapuã.
O escritor começa a trabalhar em um livro que se chamaria Bóris, o vermelho, mas que, por diversos motivos, teve sua produção interrompida algumas vezes e nunca chegou a ser concluído. A Caixa Econômica Federal lança seis milhões de bilhetes de loteria com a efígie do escritor. Ainda na década de 80, publica Tocaia Grande e vê a estreia da produção Brasil-Itália Gabriela, novamente com Sônia Braga no papel principal e Marcello Mastroianni no papel de Nacib.

Sabedor da sua importância na história e na cultura brasileiras, Jorge Amado inaugura, em 7 de março de 1987, a Fundação Jorge Amado, que passa a desenvolver um intenso trabalho de preservação e divulgação da obra do escritor. A instituição ­ fica no Largo do Pelourinho, em Salvador, Bahia. Atualmente é um importante núcleo de pesquisas, cursos, palestras e seminários, além, é claro, do trabalho de documentação da obra e biogra­ a do escritor.

Seu falecimento, em 2001, ocorreu por complicações de hiperglicemia e ­ brilação cardíaca. A pedido do escritor, seu corpo foi cremado e suas cinzas enterradas aos pés de uma mangueira na sua casa no Rio Vermelho. Sua morte gerou comoção nacional. Jornalista, músico, militante político, intelectual, escritor e nome de rua em Itapuã: Jorge Amado foi um verdadeiro homem de seu tempo.

 Para saber mais

Jorge Amado no mundo
Jorge Amado ainda é o autor brasileiro mais publicado em todo o mundo, tendo suas obras editadas nos seguintes idiomas: albanês, alemão, árabe, armênio, azeri, búlgaro, catalão, coreano, croata, dinamarquês, eslovaco, esloveno, espanhol, esperanto, estoniano, finlandês, francês, galego, georgiano, grego, guarani, hebraico, holandês, húngaro, iídiche, inglês, islandês, italiano, japonês, letão, lituano, macedônio, moldávio, mongol, norueguês, persa, polonês, romeno, russo, sérvio, sueco, tailandês, tcheco, turco, turcomano,

Graciliano Ramos*
Dono de estilo contundente e direto, Graciliano Ramos é um dos mais importantes autores da literatura brasileira. Nasceu em Quebrangulo, em Alagoas, no ano de 1892 e fez os primeiros estudos no interior de Alagoas, tendo depois tentado o jornalismo no Rio de Janeiro. Regressou a Palmeira dos Índios (AL), cidade da qual foi prefeito, em 1928, renunciando ao cargo dois anos depois e passando a dirigir a Imprensa Oficial do Estado. Em 1933, foi nomeado Diretor da Instrução Pública. Por suspeita de ligação com o comunismo, foi demitido e preso em 1936. Remetido ao Rio de Janeiro, permaneceu encarcerado na Ilha Grande, onde escreveu Memórias do cárcere. Em 1945, aderiu ao Partido Comunista Brasileiro. Suas obras mais importantes são São Bernardo (1934), Angústia (1936) e Vidas Secas (1938).


Comunismo*
O comunismo é uma estrutura sócioeconômica e uma ideologia política que pretende promover o estabelecimento de uma sociedade igualitária, sem classes e apátrida, baseada na propriedade comum e no controle dos meios de produção e da propriedade em geral. O comunismo, no sentido marxista, refere-se a uma sociedade sem classes, sem Estado e livre de opressão, onde as decisões sobre o que produzir e quais as políticas devem prosseguir são tomadas democraticamente, permitindo que cada membro da sociedade possa participar do processo decisório, tanto na esfera política e econômica da vida.


Estado Novo e Golpe de 1937*
De 1937 a 1945, vigorou no Brasil um governo centralizado e autoritário, de tendências fascistas, que ficou conhecido como Estado Novo. O golpe de estado aconteceu em 1937, quando Getúlio Vargas, com a ajuda de militares e de uma massiva propaganda anticomunista, tomou o poder por completo, fechando o Congresso Nacional, extinguindo os partidos políticos e instaurando uma nova Constituição. Durante a vigência do Estado Novo foram presos diversos políticos, artistas e cidadãos comuns pelos chamados "crimes políticos", entre eles Monteiro Lobato e Luís Carlos Prestes. O Estado novo acabou oficialmente com a deposição de Getúlio Vargas, em 1945.

O texto abaixo foi publicado nesta quinta-feira no Facebook de Paloma Jorge Amado e fala sobre o político Roberto Requião

Odeio Prepotência


Paloma Jorge Amado
Era 1998, estavamos em Paris, papai já bem doente participara da Feira do Livro de Paris e recebera o doutoramento na Sorbonne, o que o deixou muito feliz. De repente, uma imensa crise de saude se abateu sobre ele, foram muitas noites sem dormir, só mamãe e eu com ele. Uma pequena melhora e fomos tomar o aviao da Varig (que saudades) para Salvador.

Mamãe juntou tudo que mais gostavam no apartamento onde não mais voltaria e colocou em malas. Empurrando a cadeira de rodas de papai, ela o levou para uma sala reservada. E eu, com dois carrinhos, somando mais de 10 malas, entrava na fila da primeira classe. Em seguida chegou um casal que eu logo reconheci, era um politico do Sul (nao lembro se na época era senador ou governador, já foi tantas vezes os dois, que fica dificil lembrar). A mulher parecia uma arvore de Natal, cheia de saltos, cordões de ouros e berloques (Calá, com sua graça, diria: o jegue da festa do Bonfim). É claro que eu estava de jeans e tênis, absolutamente exausta. De repente, a senhora bate no meu ombro e diz: Moça, esta fila é da primeira classe, a de turistas é aquela ao fundo. Me armei de paciência e respondi: Sim, senhora, eu sei. Queria ter dito que eu pagara minha passagem enquanto a dela o povo pagara, mas nao disse. Ficou por isso. De repente, o senhor disse à mulher, bem alto para que eu escutasse: até parece que vai de mudança, como os retirantes nordestinos. Eu só sorri. Terminei o check in e fui encontrar meus pais.

Pouco depois bateram à porta, era o casal querendo cumprimentar o escritor. Não mandei a putaquepariu, apesar de desejar fazê-lo, educadamente disse não. Hoje, quando vi na tv o Senador dizendo que foi agredido por um repórter, por isso tomou seu gravador, apagou seu chip, eteceteraetal, fiquei muito retada, me deu uma crise de mariasampaismo e resolvi contar este triste episódio pelo qual passei. Só eu e o gerente da Varig fomos testemunhas deste episódio, meus pais nunca souberam de nada…

* Paloma Jorge Amado é psicóloga.
Define a sua preferência política desta forma. “Sou livre pensadora. Odeio tudo que é contra o povo, reacionário, retrógrado, preconceituoso. Se tivesse que escolher uma ala, escolheria a das Baianas.”

Fonte: O texto abaixo foi publicado nesta quinta-feira no Facebook de Paloma Jorge Amado e reproduzido no blog de Cláudia Wasilewski e depois no Blog do Augusto Nunes, da revista veja, e no Blog do Kenard.

sexta-feira, 29 de abril de 2011

Evento homenageia Jorge Amado com a participação de grandes escritores brasileiros e estrangeiros no Salão do Livro em Guarulhos

Com o slogan “Cidade amiga da leitura”, o Salão do Livro de Guarulhos 2011 começa nesta sexta-feira (29) com uma homenagem ao escritor baiano Jorge Amado (1912-2001). Esta é a 2ª edição do evento, que já é considerado um dos maiores do gênero na região metropolitana de São Paulo.
 
Em uma tenda climatizada de 8 mil m², 78 estandes receberão cerca de 80 mil títulos de 400 editoras. A estrutura conta ainda com cerca de 600 vagas de estacionamento. O Salão do Livro de Guarulhos vai até do dia 8 de maio, na avenida Odair Santanelli, s/n, no bairro Parque Cecap. A abertura do Salão terá show do cantor Chico César, a partir das 19h, no auditório do evento.

Este ano o evento terá como destaque escritores e artistas como Ruy Castro, Mário Prata, Xico Sá, Zuenir Ventura, Arnaldo Antunes, Marçal Aquino, João Gilberto Noll, Contardo Calligaris, Olgária Matos, José Miguel Wisnik, Flavio Gikovate, Serginho Groisman, Thalita Rebouças, Jairo Bouer, Laura Muller e Elomar.

Três escritores estrangeiros também participam do Salão: José Manuel Prieto (Cuba), José Eduardo Agualusa (Angola) e José Pacheco (Portugal). Moacyr Scliar, escritor gaúcho que participou do Salão em 2010 e faleceu em fevereiro deste ano dá nome ao ‘Espaço Cultural’.
O 2º Salão do Livro de Guarulhos chega com diversas novidades, como o Espaço Multimídia, onde o público poderá conferir exposição de aparelhos leitores de livros eletrônicos, demonstração de e-books, games literários e áudio livros para deficientes visuais.

Durante o evento, importantes obras da literatura mundial poderão ser adquiridas com descontos de até 20% na promoção ‘Livro do Dia’. Entre as atividades programadas estão bate-papos sobre temas de interesse do público jovem, conversas com compositores sobre suas poéticas musicais, diálogos com autores que escrevem sobre o comportamento humano e palestras e mesas redondas sobre literatura, arte, cultura, filosofia e educação.

Para as crianças, o evento terá uma programação especial, com contação de histórias, mostra de cinema infantil, espetáculos teatrais e circenses, além de uma oficina de games literários e uma estação itinerante de ciência.

O Salão do Livro de Guarulhos 2011 é uma realização da Prefeitura de Guarulhos em parceria com a Associação Brasileira de Difusão do Livro (ABDL) e a Associação Nacional de Livrarias (ANL). Mais informações estão disponíveis no site: guarulhos.sp.gov/salaodolivro.      

Salão do Livro de Guarulhos 2011

Quando: de 29/4 a 8/5, das 10h às 22h
Onde: Rua Odair Santanelli – Parque Cecap (Guarulhos – SP)
Entrada: gratuita
Estacionamento: gratuito
Indicação: livre

"Dona Flor e Seus Dois Maridos" passa por Limeira e Piracicaba


Os atores Marcelo Faria, Fernanda Paes Leme e Duda Ribeiro

A peça "Dona Flor e Seus Dois Maridos" faz quatro apresentações: em Limeira nos dias 29 e 30 de abril e em Piracicaba em 7 e 8 de maio. Com Fernanda Paes Leme, Marcelo Faria e Duda Ribeiro no elenco, a montagem é baseada no livro homônimo de Jorge Amado e tem trilha sonora embalada por músicas de Dorival Caymmi.

Dirigida por Pedro Vasconcelos a comédia está em cartaz desde 2008 e já esteve em mais de 70 cidades. Em 2012, a montagem deve seguir roteiro internacional, passando por Portugal.

A história é ambientada nos anos 40 e tem quase duas horas de duração. Na região, as apresentações acontecem no Teatro Vitória, em Limeira, e no Teatro Municipal de Piracicaba.

Serviço:

Limeira
Teatro Vitória
Dias 29 e 30 de abril
Sexta e sábado às 21 horas
Ingressos R$ 50,00 inteira
Informações (19) 3451-6679 e 3451-2675

Piracicaba
Teatro Municipal

Dias 07 e 08 de maio
Sábado 21 horas e domingo às 19 horas
Ingressos R$ 60,00 inteira
Informações (19) 3433-4952


Fonte: Site EPTV

MON e Instituto Moreira Salles apresentam mostra de Maureen Bisilliat, fotógrafa do universo literário de Jorge Amado


A exposição conta com 250 fotografias com séries que vão do Xingu ao Japão. (foto: Divulgação/ MON ( Maureen Bisilliat))

A partir de 30 de abril, o Museu Oscar Niemeyer, em parceria com o Instituto Moreira Salles (IMS), apresenta a mostra Maureen Bisilliat: fotografias, com uma seleção de mais de 250 imagens editadas pela própria fotógrafa com a colaboração dos curadores do IMS. A abertura da mostra acontece neste sábado (29), às 11h. Na ocasião, a fotógrafa Maureen Bisilliat conduzirá o público em uma visita guiada, logo ao início do evento. O público em geral terá entrada gratuita no período de 10h e 12h.

A exposição é composta por alguns dos ensaios fotográficos mais conhecidos de Maureen, como as equivalências fotográficas sobre os universos literários de Guimarães Rosa, Jorge Amado, João Cabral de Melo Neto, Ariano Suassuna e Euclides da Cunha. Também fazem parte da mostra fotografias do ensaio Pele Preta, com imagens feitas quando Maureen era estudante e frequentava ateliês de modelo vivo. 

Além das referências literárias, a mostra sintetiza situações vividas ao longo de mais de 50 anos de carreira de Maureen, seja nas viagens ao Japão, África e Bolívia, ou durante os anos dedicados ao fotojornalismo, com os ensaios Caranguejeiras, Mangueira e China.

Na série dedicada ao Xingu, os visitantes da mostra poderão ver uma canoa, com seis metros de comprimento, produzida de acordo com a tradição indígena. Além disso, durante toda a mostra, haverá a projeção de Xingu/Terra, documentário feito na década de 1980 por Maureen Bisilliat e Lúcio Kodato, rodado na aldeia mehinaku, no Alto do Xingu.

O objetivo da exposição é realizar uma leitura simultânea entre a produção fotográfica e a produção editorial de Maureen Bisilliat, revelando tanto a fotógrafa como a editora de imagens e textos reunidos nas diversas publicações que produziu. Por isso, haverá na mostra um espaço dedicado ao processo gráfico e de concepção intelectual de Maureen, reunindo, além das suas publicações, grande parte do material que serviu de base para sua criação: correspondências com Jorge Amado, conversas com Guimarães Rosa, recortes de jornais, provas de gráfica e fotografias.

Também há na exposição um capitulo voltado à variada produção artística da fotógrafa, marcada principalmente após a década de 1970, com referências à extinta galeria O Bode, dedicada à divulgação da arte popular brasileira; ao seu trabalho como curadora no Pavilhão da Criatividade, no Memorial da América Latina; e à sua atuação em projetos sociais ligados à produção audiovisual, em parceria com a filha Sophia Bisilliat.

A exposição, com fotos do acervo Instituto Moreira Salles, já passou pela Galeria de Arte do SESI-SP e pelo centro cultural do IMS, no Rio de Janeiro.
SHEILA MAUREEN BISILLIAT - A fotógrafa nasceu em Englefieldgreen, Surrey, Inglaterra, em 1931. Estudou pintura com André Lothe em Paris (1955) e no Art Students League em Nova York (1957) antes de se fixar definitivamente no Brasil em 1957, na cidade de São Paulo. Trabalhou para a Editora Abril entre 1964 e 1972, fotografando para várias publicações, das quais destaca-se a revista Realidade.

É autora de livros de fotografia inspirados em obras de grandes escritores brasileiros, como A João Guimarães Rosa, em 1966; Sertões – Luz e trevas, de 1983, baseado no clássico de Euclides da Cunha (1866-1909); O cão sem plumas, de 1984, referenciado no poema de mesmo título de João Cabral de Melo Neto (1920-1999), e Bahia amada amado, de 1996, com seleção de textos de Jorge Amado (1912-2001).

Em 1985, expõe em sala especial na 18ª Bienal Internacional de São Paulo um ensaio fotográfico inspirado no livro O turista aprendiz, de Mário de Andrade (1893-1945). Ela produziu, ainda, Xingu – Território tribal (1979) e Terras do rio São Francisco (1985). A partir da década de 1980, dedicou-se ao trabalho em vídeo, com destaque para Xingu/terra, documentário de longa-metragem rodado com Lúcio Kodato na aldeia mehinaku, no Alto Xingu.

Recebeu bolsa da John Simon Guggenheim Foundation, Estados Unidos (1970), do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (1981/1987), da Fundação de Amparo a Pesquisa do Estado de São Paulo (1984/1987) e da Japan Foundation (1987). Formou o acervo de arte popular do Pavilhão da Criatividade do Memorial da América Latina, São Paulo, o qual dirige desde 1988. Ela obteve o prêmio de Melhor Fotógrafo da Associação dos Críticos de Arte de São Paulo (1987).
Em dezembro de 2003, sua obra fotográfica completa, composta por cerca de 16 mil imagens - fotografias, negativos preto e branco e cromos coloridos, nos formatos 35 mm e 6 x 6 cm - foi incorporada ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles.

SERVIÇO:

Local:Museu Oscar Niemeyer
Endereço: Rua Marechal Hermes, 999 – Centro Cívico
Data e horário: Entre 30 de abril e 31 de julho –, de terça a domingo, 10h às 18h
Preço: R$ 4,00 (inteira) e R$ 2,00 (meia entrada). Gratuito para grupos agendados da rede pública, do ensino fundamental e médio, para crianças até 12 anos, maiores de 60 anos e no primeiro domingo de cada mês.

Fonte: Bem Paraná

quinta-feira, 28 de abril de 2011

Conheça a Fundação Casa de Jorge Amado



A Fundação Casa de Jorge Amado é uma organização não-governamental e sem fins lucrativos cujo objetivo é preservar, pesquisar e divulgar os acervos bibliográficos e artísticos de Jorge Amado, além de incentivar e apoiar estudos e pesquisas sobre a vida do escritor e sobre a arte e literatura baianas. A Casa de Jorge Amado tem também como missão a criação de um fórum permanente de debates sobre cultura baiana – especialmente sobre a luta pela superação das discriminações raciais e sócio-econômicas.

Para manter viva a memória do escritor – que já teve seus livros publicados em 60 países – desde que foi inaugurada, a Casa de Jorge Amado conta com uma exposição permanente de documentos, fotografias, livros, suas apropriações populares, adaptações e objetos relacionados. Também estão expostos prêmios recebidos por Jorge e fotos tomadas por Zélia Gattai, documentando o dia-a-dia do autor.

Atualmente, a Fundação Casa de Jorge Amado já é considerada um ponto de referência na geografia cultural de Salvador.

A Fundação Casa de Jorge Amado consolidou-se (…) como um centro polarizador; dedicando-se não só a expressar a voz e a cultura da Bahia, mas, igualmente, atuando como caixa de ressonância, testemunha participativa de acontecimentos que, pelo seu alcance, demonstram o prestígio e a importância de sua existência.

Casa em que tudo acontece, em que todos se encontram. Atenta a todas as manifestações culturais, aberta aos ventos da convivência, encruzilhada de destinos diversos, confluência de contrários que se unem numa Bahia mística e profana.

Visitantes ilustres, presidentes, ministros, governadores, astros do cinema, da música, da televisão, fotógrafos, escritores, artistas das mais variadas procedências passaram por suas portas, atraídos pelo carisma do Pelourinho e pelo desejo de conferir o mistério desse local, fronteira de um mundo recriado pelo poder da escritura, povoado por seres de carne e osso e personagens de ficção, centro do mundo, coração da Bahia de Jorge Amado, que transcende os limites do real para inscrever-se no mapa das cidades lendárias.

Uma casa de palavras, fiel ao destino que lhe traçaram desde o início, quando era apenas um sonho. Casa de Jorge Amado – múltipla, inquieta, mutável e mutante, que a cada dia se renova, hospitaleira e receptiva. Disse e repito: quem for de paz, pode entrar

Myriam Fraga

A adoção, sugerida por James Amado, da frase “Se for de paz, pode entrar”, como lema da Casa, procurou expressar o desejo dos que elegeram este espaço como um local em que se privilegiasse o entendimento entre contrários, na busca da harmonia e da fraternidade, contra toda forma de discriminação.

Para Jorge Amado, a Casa não deveria jamais se transformar em depósito de documentos, mas se constituir, cada vez mais, em um permanente Centro, vivo e atuante.

O que desejo é que nesta Casa o sentido de vida da Bahia esteja presente e que isto seja o sentimento de sua existência. Que, ao lado da pesquisa e do estudo, seja um local de encontro, de intercâmbio cultural entre a Bahia e outros lugares.
Jorge Amado

Histórico

Em 1982, Jorge Amado comemorou 70 anos de idade e 50 anos de literatura. Naquela época, algumas instituições, no Brasil e no exterior, faziam pressão para que o autor doasse seu acervo literário, a fim de que este pudesse ser melhor preservado e estudado. Mas sua mulher, a também escritora Zélia Gattai, se opunha à ideia, afirmando que o acervo pertencia aos baianos e, portanto, deveria ficar na Bahia.

Quando digo que Zélia é a responsável pela existência da fundação cultural estabelecida no Pelourinho, nascida da doação de meu acervo literário leva meu nome, digo a verdade. Não fosse Zélia o acervo estaria a essa hora em universidade norte-americana.
 
(…) Pesava eu propostas recebidas de universidades americanas, da Pensilvânia e de Boston, desejavam receber o acervo em doação, propunham-me zelar por ele, colocá-lo à disposição dos interessados em pesquisá-lo, criando para tanto verbas e espaços. Eu testemunhara, durante minha estada na Penn State University, como tais universidades trabalham com eficiência e dedicação. Estava quase a decidir-me, Zélia se opôs com determinação à minha ideia de oferecer à organização estrangeira documentos, correspondências, livros, fotos, diplomas, a massa dos guardados: esse acervo só sairá do Brasil, da Bahia, se passarem por cima de meu cadáver, tem de ficar aqui, é o seu lugar. No decorrer de quase meio século de coabitação, aprendi que não adianta discutir com Zélia, perco sempre, até agora não ganhei uma.
Jorge Amado
Dois anos mais tarde, a escritora Myriam Fraga – até hoje à frente da instituição – trouxe à tona, novamente, a questão da necessidade de se fundar uma casa que guardasse o acervo de Jorge. A Universidade Federal da Bahia, através do seu então reitor Germano Tabacof, propôs iniciar a tarefa de organizar os documentos, que até este momento estavam guardados na casa do escritor, no Rio Vermelho.

Em 1986, foi criada a Fundação Casa de Jorge Amado, que seria inaugurada no dia 07 de março do ano seguinte, contando com a colaboração fundamental da escritora Zélia Gattai.

Jorge e Zélia puderam, em vida, frequentar a instituição estabelecida em sua homenagem.

Localização 

Largo do Pelourinho
Pelourinho, Salvador
Bahia, 40.026-280

TEL: +55 71 3321-0070
         +55 71 3321-0122

A Fundação nas redes sociais  

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Fonte: Fundação Casa de Jorge Amado

O Grande Mural dos Orixás

O pintor Carybé com seu olhar de lince, pronto a captar os percalços do cotidiano
O pintor Carybé com seu olhar de lince, pronto a captar os percalços do cotidiano



Carybé, filho espiritual de Mãe Senhora e obá de Xangô. 

E assim, cem anos se passaram desde seu nascimento, e, assim tão de repente, cem anos se passaram...

E é pelo centenário de seu nascimento que procuramos reviver muitos momentos da vida do artista, com sua alegria de moleque, sempre aprontando alguma das suas muitas peripécias, subindo e descendo as ruas e ladeiras da velha Cidade da Bahia, tão amada por ele, tão representada e recriada em sua grande obra plástica e nos textos que também escreveu.

Ele nasceu Hector Julio Paride Bernabó, lá em Lanus na Argentina, mas aqui renasceu como Carybé. Com o toque mágico do seu lápis, fazia surgir um mundo de coisas com a agilidade de quem "rouba" da realidade, para não perder o instante nem deixar de registrar o que os olhos acabavam de apreender. Com a palheta de pintura e partindo da Bahia de seu tempo, fez telas memoráveis habitadas por um povo vivo, colorido, insinuante, andando sem pressa ao compasso ritmado, como se ouvisse o tam-tam dos tambores ancestrais.

Da sua obra surgia a atmosfera de uma Bahia cheirando ao azeite de cheiro dos tabuleiros de acarajé das pretas gordas, mas também exalava incenso e mirra das centenárias igrejas do Terreiro de Jesus, na celebração das missas durante as manhãs luminosas da cidade. E quando a noite caía, era o toque dos atabaques que vibrava nas terras longínquas habitadas por deuses do outro lado do Atlântico.

Sua lembrança fará sempre parte das nossas vidas. Sua alegria, seu olhar de menino curioso e todas as coisas geniais que você fez, como sua extensa obra, seus murais narrando a vida baiana - incorporando índios, negros e, por que não?, os brancos também, portugueses, colonizadores - serão sempre uma grande lição de brasilidade e de conhecimento da nossa história. São muitas as suas obras. Todas elas são mesmo uma grande lição de arte, de maestria, de intimidade e de um passado fascinante.

Como poderemos esquecer os desenhos das Setes Portas da Bahia, a acuidade dos registos das festas e da vida da terra, da grande Feira de Água de Meninos, do Mercado Modelo com sua Rampa povoada pelos saveiros do Recôncavo e pelos atlantes negros carregando seus fardos, da Lavagem da Igreja do Bonfim, da Pesca do Xaréu, do Presente de Iemanjá? Em todos esses momentos ele foi mais que fiel, ele foi aquele cuja síntese dos traços expunha a vida, que apesar de dura, era cheia de graça. 

Como não recordar as belas ilustrações e capas de muitos livros e discos, esquetes para ballet ou para o famoso filme de Lima Barreto - Lampião, o Rei do Cangaço? E os belos e ágeis desenhos, vivos, humanos, expressivos, estampados nas páginas dos romances de Jorge Amado, Mario de Andrade, Gabriel Garcia Marques, Antônio Olinto, Vasconcelos Maia, Odorico Tavares, Rubem Braga, entre muitos e muitos outros?

Assim é a obra desse artista gigante, com seu olhar de lince pronto a captar os percalços do cotidiano, as vicissitudes desse cenário de sonhos, onde se misturam alegrias, desencantos, realidades, construídos não sei por que, ou por quem, talvez por Deus ou mesmo pelo diabo.

O certo é que um dia por aqui chegou um gringo, que desta terra se apoderou e se tornou baiano, soteropolitano, e se fez apaixonado e em estado de graça por tudo que via e tocava. 

Para seu grande prazer estético, para sua reinvenção, apreendeu cenas e mais cenas, um cabedal interminável de grande obras, falando de verdades e mentiras gloriosas, de cores quentes de luzes intensas, azuis profundos, céu e mar, cidade, ruas, casas, sobrados, palácios, palacetes e muitas igrejas. Viu também homens e mulheres nuas, sensuais deusas profanas, mestiças, brancas e negras, gordas e esguias, espiritualizas pelos santos brancos e deuses negros - guerreiros, caçadores, donos das ervas, das esquinas e das encruzilhadas. Tudo isso era muito mais do que a realidade: era a grande Mãe Negra espirrando do seu grande ventre tentações e invenções.

Carybé foi um mágico de muitas artes. Suas muitas incursões artísticas tinham sempre uma nova provocação, um novo desafio, ora pela monumentalidade dos grandes muros, ora pela união de diferentes materiais, ora pela forma como tratava os entalhes de madeira à semelhança da ourivesaria. Do vidro ao azulejo, da cerâmica ao metal, da pintura, da pedra, do bronze ao cimento, o certo é que ele harmonizava um grande quebra-cabeça com diferentes técnicas, materiais, formas e conteúdos. Ele era mesmo um construtor obstinado. Quantas vezes suas mãos não ficaram com chagas abertas em feridas vivas, sem nunca impedi-lo do fazer diário da sua obra? Foram difíceis momentos de sacrifícios à arte, do artista no seu trabalho como um passo adiante na sua criação.

Mas, ao celebramos o talento do nosso Carybé nesta homenagem ao centenário de seu nascimento, temos que lembrar a característica multifacetária de sua personalidade.

Houve um homem, amigo afetuoso, colecionador de muitos amigos, um curioso por saber das coisas da sua religião, que adotou por opção. Por ela fez muitos e muitos registros, fez pinturas, gravuras e a sua obra máxima: A Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia, com ensaios de Jorge Amado, Waldeloir Rego e Pierre Verger.

Foi um devoto fiel e, por isso, era comum encontrá-lo nas Festas de Dona Olga do Alaketo, da Casa Branca, no Gantois. Mas sua paixão mesmo era o templo do Ilê Axé Opô Afonjá. Ali ele voltava aos tempos pretéritos de Dona Maria Bibiana do Espírito Santo - Mãe Senhora -, da festa de sua Oxum Muiwá, do encontro memorável dos Obás de Xangô, reunidos na atmosfera do terreiro do São Gonçalo: Jorge Amado, Pierre Verger, Sinval e Vivaldo Costa Lima, Rubim de Pinho, Tibúrcio Barreiro, Waldeloir Rego. Havia ainda Deoscóredes Maximiliano dos Santos, Camafeu de Oxóssi e muito mais gente que ia ao chamado daquele templo consagrado a Xangô.

Um dia, não sei quando, ele se fez um monge no seu atelier para fazer a grande empreitada, a mais desejada da sua vida, O Grande Mural dos Orixás, para a agência da Avenida Sete de Setembro do então Banco da Bahia. A encomenda vinha de um velho amigo das artes: Clemente Mariani.

De posse de goivas e formões, mergulhou com obstinação nas pranchas de cedro e traduziu com mestria e refinamento as histórias religiosas para entalhar os baixos relevos, as incrustações, os apliques, as colagens, para dar vida real a cada Orixá, com sua indumentária, seus atributos, seus bichos de devoção. Assim, como num passe de mágica, surgiu ali, pronto, deslumbrante e de alma tranquila. Estava criado O Grande Mural dos Orixás. A grande Iconografia dos Deuses Africanos no Candomblé da Bahia se materializava pelas mãos de um dos mais fervorosos devotos da religião africana da Bahia.

E é com parte desse grande mural que o Museu Afro Brasil se associa às comemorações do ano do Centenário de Carybé, como reconhecimento ao seu grande talento e ao legado artístico e histórico deixado por ele nos seus muitos anos de vida devotados à arte, à criação e à invenção mítica da cidade escolhida por ele para o seu grandioso legado: a história das gentes da Velha Cidade da Bahia de Todos os Santos.

Obrigado Mano Velho Carybé, por tudo que você criou.

Fonte: Terra Magazine

quarta-feira, 27 de abril de 2011

Espetáculo teatral baseado em obras de Jorge Amado


Atores de Capitães da Areia no palco móvel

Hoje, na Vila Olímpica, em Nova Iguaçu, será apresentada a peça do projeto da Fundação CSN “Um caminhão para Jorge Amado em três momentos”. Serão apresentadas as peças “Gato Malhado” e “Capitães da Areia”, obras clássicas do escritor baiano Jorge Amado. Os espetáculos teatrais acontecerão às 15h e às 18h, respectivamente.

Também em Queimados as comemorações antecipadas do Dia do Trabalhador, que se iniciarão amanhã, às 19h, terão abertura das festividades por conta do espetáculo teatral.

Na semana do dia do trabalhador o caminhão estaciona no Sul do Estado do Rio de Janeiro nos dias 2, 3, 4 e 6 de maio. As apresentações acontecerão em Barra Mansa, Resende, Vassouras e Piraí. A entrada é de graça e a classificação livre. 

As peças são apresentadas em um caminhão que se transforma em palco adaptado com equipamentos modernos de som e luz e 16 atores encenando Capitães de Areia e Gato Malhado e Andorinha Sinhá, levando ao conhecimento do público grandes nomes da literatura nacional utilizando artes cênicas como transformação social.

A meta da Fundação CSN é que o projeto possa ser apresentado para um público de cinco mil pessoas. Além disso, querem estimular a leitura e difundir a obra do autor mundialmente conhecido.

Sinopse

Capitães da Areia conta a história dos meninos de rua na Bahia da década de 30. Na época de seu lançamento, o texto  foi considerado subversivo e censurado. Os livros chegaram a ser queimados em praça pública.

Gato Malhado e Andorinha Sinhá é um clássico infanto-juvenil. A obra, um presente de Jorge Amado para seu filho, conta a história de um amor impossível de um gato solitário, bravo e mal-humorado por uma jovem, gentil e bela andorinha.


Programação do Rio de Janeiro

Barra MansaSegunda-feira, 2:
15h - Gato Malhado e Andorinha Sinhá
18h - Capitães da Areia
Local: Praça Dom Sebastião Leme, no Bairro Saudade.

ResendeTerça-feira, 3:
15h - Gato Malhado e Andorinha Sinhá
18h - Capitães da Areia
Local: Praça Oliveira Botelho, no Centro

Vassouras
Quarta-feira, 4:
14h30 - Gato Malhado e Andorinha Sinhá
19h - Capitães da Areia
Local: Espaço Cultural Wilson Guedes , na Avenida Expedicionário Oswaldo de Almeida Ramos, no Centro.

Piraí
Sexta-feira, 6:
15h - Gato Malhado e Andorinha Sinhá
18h - Capitães da Areia
Local: Praça da Preguiça, no Centro.

terça-feira, 26 de abril de 2011

Músico Dog Murras é "Capitão da Areia"


Cantor foi convidado a participar na adaptação para o cinema do romance de Jorge Amado
Fotografia: DR
O músico angolano Dog Murras acaba de participar na banda sonora do filme "Capitães da Areia" baseado na obra homónima de Jorge Amado e realizado por Cecília Amado.
O filme mais aguardado este ano no Brasil terá um tema de kuduro interpretado pelo cantor angolano. Segundo o Portal Platina Line, Carlinhos Brown compôs toda a banda sonora de "Capitães da Areia". 

 
Murtala de Oliveira "Dog Murras" tem seis discos gravados: "Sui Generis" (1999), "Natural e Diferente", (2001), "Bué Angolano" (2003), "Pátria Nossa" (2005), "Kwata-Kwata", (2007) e "Angolanidade" (2010).
Ganhou vários prémios nacionais e internacionais, entre os quais dois Discos de Ouro da editora portuguesa Vidisco, pelo sucesso de vendas dos álbuns "Bué Angolano" (2004) e "Pátria Nossa" (2006). Tem, também, um Disco de Prata, da sua antiga editora (Zé Orlando), por ter vendido mais de dez mil cópias do CD "Natural e Diferente", o seu segundo trabalho discográfico.

 
O filme narra a história da cidade de Salvador da Baía que vive uma onda de assaltos nos anos 50. Um bando de meninos de rua, conhecidos como "Capitães da Areia", é apanhado, como sendo um grupo de bandidos perigosos. Olhando de perto, descobrimos que não passam de crianças, quase uma centena delas, que vivem abandonadas. Mas não serão meninos para sempre: no final desta odisseia, muitos tornaram-se homens. Um ano da vida desses meninos. Ano em que viveram as mais incríveis aventuras, foram heróis e humanos, voaram como pássaros, tiveram os mais belos sonhos, visitaram o inferno, descobriram o sexo, o amor, a morte, a liberdade! 

 
Este é o enredo do filme "Capitães da Areia", baseado no romance de Jorge Amado, um dos livros mais vendidos do escritor. Com mais de cem edições, totalizando mais de cinco milhões de exemplares em todo o mundo.

 
O romance que, além do enredo fascinante conta com uma narrativa muito visual e poética, apresenta personagens complexas e profundas, descreve belíssimos locais, sugere diálogos, músicas, climas, parece mesmo ter sido escrito para o cinema e merece uma adaptação à sua altura. Muitos jovens, em cada nova geração, sonham com a imagem dos Capitães da Areia a correrem pelas praias de Salvador. O filme vai projectar esse sonho nos ecrãs de cinema, pintando com cores fortes um painel dos anos 50 na Baía: uma leitura moderna para um filme de época cuja temática continua extremamente actual.


Fonte: Jornal de Angola Online

Mãe Stella na Fundação Casa de Jorge Amado

Foto: Alessandra Benini / BN


A ialorixá e escritora Mãe Stella de Oxóssi, líder do Ilê Axé Opô Afonjá, é a convidada da próxima edição do projeto ‘Com a Palavra o Escritor’, realizado pela Fundação Casa de Jorge Amado. 

Maria Stella de Azevedo Santos, conhecida como Mãe Stella de Oxóssi, Iya Odé Kayode, é respeitada por suas idéias no país e no exterior, sendo uma referência em termos de diálogo inter-cultural e inter-religioso. Com cinco obras publicadas – “Daí Nasceu o Encanto” (em co-autoria), “Meu Tempo é Agora”, “Oxóssi – O Caçador de Alegrias”, “Òwe – Provérbios” e “Epé Laiyé – Terra Viva”, Stella foi a primeira ialorixá a escrever livros e artigos sobre sua religião. Mãe Stella viajou várias vezes para a África, visando aprofundar os conhecimentos sobre a cultura iorubá (que é, basicamente, oral), e conseguiu transformá-la em uma herança escrita. Isto possibilitou uma maior divulgação dos cultos africanos e da religião dos orixás, em todo o país. Tem proferido palestras e participado de seminários em diferentes partes do Brasil e do mundo. Atualmente, tem uma coluna fixa no jornal A Tarde (Bahia).
Em 2001, ganhou o Prêmio Estadão, na condição de fomentadora de cultura; em 2005, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade Federal da Bahia (UNEB). É detentora das comendas Maria Quitéria (Prefeitura do Salvador), da Ordem do Cavaleiro (Governo da Bahia) e comenda do Mérito Cultural (Presidência da República). Na Conferência da Organização das Nações Unidas (ONU), contra o racismo e a intolerância, ocorrida em Durban, em agosto de 2001, ela foi uma das mais fortes lideranças brasileiras.

O evento acontece nesta quarta-feira (27), às 17 horas. Antes de comentar sua trajetória como escritora e responder perguntas, Mãe Stella será apresentada por Yeda Castro, etnolinguista e Doutora em Línguas Africanas pela Universidade Nacional do Zaire.

Em sua primeira edição de 2011, o projeto ‘Com a Palavra o Escritor’, completa 17 anos este ano, sempre aproximando o público e os autores em encontros intimistas e instrutivos.

SERVIÇO

O QUÊ
: Mãe Stella de Oxóssi em Com a Palavra o Escritor
QUANDO
: 27 de abril, quarta-feira, às 17 horas
ONDE
: Café Teatro Zélia Gattai, Fundação Casa de Jorge Amado, Pelourinho
QUANTO
: Grátis

Fonte: Jornal da Bahia e Fundação Casa de Jorge Amado

segunda-feira, 25 de abril de 2011

O País do Carnaval: 80 anos

    
  Abril é um mês no qual comemora-se o aniversário de um importante acontecimento da Literatura Brasileira do séc. XX: 80 anos do lançamento de O País do Carnaval, primeiro romance de Jorge Amado. Essa é a homenagem do Blog ao nosso Mestre Baiano!







   O país do Carnaval é o primeiro romance de Jorge Amado, escrito quando ele tinha apenas dezoito anos. O livro foi publicado pela editora Schmidt em 1931, mesmo ano em que o autor ingressou na faculdade de direito no Rio de Janeiro. Antes de O país do Carnaval, Jorge Amado publicara os poemas de A luva e a novela Lenita, mas por opção do próprio escritor esses trabalhos não foram incluídos na relação de suas obras completas.

   O livro surpreendeu a crítica: um livro crítico e contestador sobre a ética – ou falta dela – dos intelectuais da época diante da situação social e política do Brasil às vésperas da revolução de 30, liderada por Getúlio Vargas. Expressa o clima intelectual da época, marcado pela idéia de crise e incerteza. Jorge Amado surpreendeu a crítica e o público com sua aguçada crítica política.  

   O retrato crítico e investigativo vem através da imagem festiva e contraditória do Brasil, a partir do olhar do personagem Paulo Rigger, um brasileiro que não se identifica com o país. Filho de um rico produtor de cacau, Rigger volta ao Brasil depois de sete anos estudando direito em Paris. Num retorno marcado pela inquietação existencial, ele se une a um grupo de intelectuais de Salvador, com o qual passa a discutir questões sobre amor, política, religião e filosofia. Dúvidas sobre os rumos do país ocupam o grupo. 

   O protagonista mantém uma relação de estranhamento com o Brasil do Carnaval, acredita que a festa popular mantém o povo alienado. Os exageros e a informalidade brasileira são motivo de espanto, apesar de a proximidade com o povo durante as festas nas ruas fazer com que ele se sinta verdadeiramente brasileiro. Aturdido pelas contradições, Rigger decide voltar para a Europa.


   Mestiçagem e racismo, cultura popular e atuação política são alguns dos temas de Jorge Amado que aparecem aqui em estado embrionário. Brutalidade e celebração revelam-se, neste romance de juventude, linhas de força cruciais de uma literatura que se empenhou em caracterizar e decifrar o enigma brasileiro.

     A primeira edição teve tiragem de mil exemplares e prefácio do editor e poeta Augusto Frederico Schmidt. O romance foi recebido com entusiasmo por Rachel de Queiroz, que havia publicado O quinze no ano anterior. Os dois escritores se conheceram no Rio de Janeiro, e foi ela quem lhe apresentou a Juventude Comunista. Em 1932, Jorge Amado se tornou militante.

     Ainda em Salvador, o escritor já havia freqüentado, entre 1927 e 1931, a Academia dos Rebeldes, grupo literário formado em torno do jornalista e poeta Pinheiro Viegas. Em entrevista ao jornalista Joel Silveira, Jorge Amado destacou a influência de Viegas e seu grupo na escrita de O país do Carnaval. Alguns críticos apontam ainda o intelectual paulista Paulo Prado, autor de Retrato do Brasil, como modelo para o protagonista Paulo Rigger. 

   Considerado subversivo, O país do Carnaval estava entre os livros de Jorge Amado que foram queimados em praça pública em Salvador, por determinação da polícia do Estado Novo, em 1937. O livro foi publicado em Portugal e traduzido para mais três idiomas.









Principais Personagens

Paulo Rigger:
filho de rico cacauicultor recém falecido, de volta de Paris.

Julie: amante
francesa de Paulo que desembarca com ele no Rio.

Pedro Ticiano: ateu, homem cético, o terror dos letrados.

Ricardo Reis: piauiense, tentando a vida na Bahia. Poeta, funcionário público, estudante de direito.

A. Gomes: jornalista, diretor de uma revista, sonha ficar rico.

Jerônimo Soares: o mais apagado dos amigos. Mulato, ingênuo, sem vaidades.

José Lopes: o mais estranho de todos. Batia de frente com Ticiano.

Maria de Lourdes: jovem pobre, por quem Paulo Rigger se apaixonaria.

sábado, 23 de abril de 2011

Conhecendo a Bahia - História

A história da Bahia se confunde com a própria história do país. Em Porto Seguro, no Extremo Sul da Bahia, no ano de 1500, o Brasil foi descoberto com a chegada dos portugueses e a celebração da primeira missa, em Coroa Vermelha, por frei Henrique Soares de Coimbra. Nesses cinco séculos de muitas histórias, a Bahia foi palco de invasões, como a Holandesa, das guerras pela Independência, e de conflitos e revoltas, como a Sabinada e a dos Malês.
No século XVI, a Bahia foi movida pela economia do pau-brasil e da cana-de-açúcar, seguida pelo ciclo do ouro e do diamante. A fase áurea da cana-de-açúcar, inclusive, proporcionou o surgimento da nobreza colonial, provocando um aumento populacional e também financeiro, principalmente na capital, o que pode ser comprovado pelas construções das principais igrejas da cidade, como a de São Francisco, a igreja de ouro, a venerável Ordem Terceira de São Francisco, com fachada em barroco espanhol, e a Catedral Basílica, onde está o túmulo de Mem de Sá, o terceiro governador-geral do Brasil, e a cela onde morreu o padre Antônio Vieira.

Descobrimento do Brasil

   O descobrimento do Brasil foi resultado da expansão colonialista europeia. No ano de 1500, em março, uma esquadra portuguesa comandada pelo fidalgo Pedro Álvares Cabral, viajando para a Índia, desviou-se de sua rota. Seguindo sinais de terra próxima, no entardecer do dia 22 de abril, atingiu um ponto do litoral sul do atual estado da Bahia. Em 24 de abril, as esquadras comandadas por Cabral velejaram à procura de um melhor porto para ancorar seus navios. Encontraram um “muito bom e seguro” no local denominado hoje de Baía Cabrália.
   A primeira missa foi celebrada no dia 26, num domingo, pelo frei Henrique Soares Coimbra, franciscano que ia para a Índia, no ilhéu Coroa Vermelha. No dia seguinte, foi cortada a primeira madeira com que se fez uma cruz para ser celebrada a segunda missa, em 1º de maio. No mesmo dia, Cabral partia para Índia, enquanto outro fidalgo, Gaspar de Lemos, seguia para Lisboa, levando a noticia do descobrimento para o rei de Portugal, Dom Manuel I. Na terra, chamada por Cabral de Vera Cruz, ficaram dois homens para se entender com os nativos.
    Em 1501, os portugueses organizaram uma nova expedição, desta vez de reconhecimento à terra descoberta no ano anterior. Pilotada pelo navegador florentino Américo Vespúcio, a esquadra portuguesa chega em 1º de novembro a um grande golfo, a Baía de Todos-os-Santos. Dessa  viagem,  Vespúcio somente deu noticias pormenorizadas em 1504.

Povoamento


   O vasto território da Bahia foi lentamente povoado com contribuição de três grupos humanos: o índio (nativo), o negro (africano) e o branco (europeu). O índio já se encontrava aqui.O africano e o europeu foram trazidos para as atividades de colonização. Talvez seja exatamente esta mistura de raças, tão peculiar à Bahia, que provocou o misticismo que caracteriza o estado.
    A miscigenação das raças deu origem aos mestiços. Do africano e português surgiu o mulato. Do índio com o português, o mameluco ou caboclo, e do africano com o índio, o cafuzo. Ainda assim, cada um desses três grupos deixou colorido próprio na formação baiana, contribuindo principalmente na cultura da terra, que é muito rica de componentes desses três elementos.

Capitanias hereditárias

A Bahia foi descoberta no período em que o comércio com os portos índicos era bastante compensador para Portugal. Desta forma, o Reino não tinha motivos para dedicar muita atenção a sua nova colônia. Somente depois de atravessar uma grave crise financeira e verificar incursões dos franceses no litoral brasileiro é que os portugueses sentiram a necessidade de tomar posse da nova terra. Aconselhado, D. João III decidiu dividir a colônia, doando-a sob forma de capitanias hereditárias. No território da Bahia foram doadas cinco: Capitania da Bahia de Todos os Santos, a Francisco Pereira Coutinho; de Porto Seguro, a Pero de Campos Tourinho; de Ilhéus, a Jorge de Figueiredo Correia; de Itaparica, ao 1º Conde de Castanheira, Dom Antônio de Athaíde; e a do Recôncavo, a Álvaro da Costa.
    Com a necessidade de se criar um centro político e administrativo capaz de congregar todas as capitanias, foi instituído, em 1549, o governo geral. Assim, em 29 de março, aportou na Baía de Todos- os- Santos o primeiro governador-geral, o fidalgo português Tomé de Sousa. Além de colonos e subalternos da Coroa, Tomé de Sousa conduzia os seis primeiros religiosos da Companhia de Jesus, chefiados pelo padre Manoel da Nobrega.  Logo depois foi criado o primeiro bispado da colônia, ocupado por dom Pero Fernandes Sardinha.
    Em 1553, chega, para substituir Tomé de Sousa, Duarte da Costa. Ele trouxe em sua comitiva mais alguns jesuitas, dentre eles José de Anchieta. Mem de Sá substituiu Duarte da Costa. Seu governo foi marcado pela harmonia com a Igreja, ao contrário do seu antecessor. Até a invasão holandesa, mais 12 portugueses governaram o Brasil, cuja sede era a Bahia.

Invasão holandesa

   Depois de se desligar do domínio espanhol, a Holanda necessitava de colônias ou de produtos das colônias tropicais para sobreviver. A Bahia foi escolhida para a primeira grande invasão. Era então  governador-geral da colônia D. Diogo Mendonça Furtado. Preocupado com o despreparo bélico do Brasil, Mendonça Furtado entrou em choque com a Igreja, que não via necessidade de preocupações militares. Mesmo assim, os holandeses não tiveram muitos problemas para tomar a cidade.
    Em 09 de maio de 1624, a esquadra holandesa, sob o comando de Jacob Willekens, aportou no Farol da Barra. Após alvejar os canhões da Ponta do Padrão, os 3.400 homens que compunham a esquadra holandesa não levaram muito tempo para render o governador-geral, que foi aprisionado na chamada Casa dos Governadores. A permanência dos holandeses em terras baianas, no entanto, foi curta. Em 27 de março de 1625, a esquadra de reforço portuguesa, comandada pelo espanhol D. Fradique de Toledo Osório, chegou a terras baianas. Foram mais de 40 dias de batalha e, em 1º de maio, houve a primeira rendição.
    Outras tentativas de invasão dos holandeses foram registradas na Bahia, mas nenhuma delas foi bem sucedida. A Bahia ficou como o centro da luta pela expulsão dos holandeses, que chegaram a ocupar Pernambuco, Alagoas, Paraíba e Rio Grande do Norte.

Conjuração dos Alfaiates

    No fim do século XVIII, a Bahia era um dos principais núcleos coloniais do Brasil, com sua economia voltada para o mercado exterior e toda baseada no trabalho escravo. Os reflexos da vitoriosa Revolução Francesa chegavam à Bahia e os livros de Voltaire, Montesquieu e Rosseau, que estavam proibidos por leis severíssimas, colocavam em evidência as novas ideias de estado republicano e democrático, baseado na maioria da Nação, com respeito às liberdades humanas e princípio de igualdade de todas as pessoas perante a lei.
    Ao redor desses ideais revolucionários formou-se um grupo de baianos que pensava na fundação de uma república representativa, onde os líderes do povo seriam eleitos e sob a qual existiria a igualdade. Esses revolucionários baianos de 1798, como os de Minas Gerais, de 1789, ainda estavam em fase de conversas, quando foram descobertos. Editaram apenas dois boletins. Foram presos e condenados à morte.

Abertura dos portos


Pressionados pela França e Inglaterra, que brigavam entre si e disputavam o apoio de Portugal, o príncipe regente D. João transferiu a sede do governo lusitano para o Brasil. Em 22 de janeiro de 1808, D. João desembarcava na Bahia com a família real, depois de uma tempestade que obrigou parte da esquadra a desviar sua rota original. Junto com as comemorações da cidade para homenagear a família real, homens de comércio e senhores de engenho solicitaram do então príncipe regente a abertura do porto da Bahia para a entrada de navios de outras nações. Ainda na Bahia, D. João, atendendo ao pedido do médico José Correia Picanço, concordou com a criação de uma Escola de Cirurgia, que originou a famosa Faculdade de Medicina da Bahia.

Independência


    Os movimentos de insatisfação com a condição de colônia e reino que o Brasil mantinha ao longo de sua história começaram a ser deflagrados em 1817. Mesmo com a brutal repressão ao movimento de Conjuração dos Alfaiates e com a chamada Revolução de 1817, uma nova onda revolucionária surgia em Portugal, e, em 1821, a revolução constitucionalista chegava ao Brasil. Dela resultou a decisão de incluir deputados brasileiros para representar a colônia nas discussões da futura Carta Constitucional. Foram eleitos no dia 03 de setembro de 1821 quatro baianos: José Lino Coutinho, Cipriano Barata, Domingos Borges de Barros e o padre Francisco Agostinho Gomes.
    Ainda assim, as insatisfações com a condição de colônia não sanaram e levaram o príncipe regente D. Pedro a negar obediência à Corte de Lisboa em janeiro de 1822, tornando-se assim ponto de apoio e união para o movimento pela independência. Porém, para controlar e dominar toda a região, o príncipe regente substituiu oficiais brasileiros por portugueses no comando das Armas. Para a Bahia foi designado o brigadeiro Inácio Madeira de Melo. Apontando incorreções no decreto de nomeação do brigadeiro, a Câmara recusou-o, negando-se dar posse ao novo comandante. A partir daí, houve choque entre portugueses e brasileiros. Os soldados lusos tomaram a cidade e praticaram muitos absurdos, como a invasão do Convento da Lapa, ocasião em que assassinaram a madre Joana Angélica, que defendeu a porta da clausura.
    Os baianos não aceitaram a perda da cidade, e começou então um período de intensa guerrilha urbana, culminando com um grande cerco a Salvador, no dia 02 de julho, data em que se comemora a Independência da Bahia.

Império

    Depois da Independência, uma nova divisão administrativa no Brasil deu à Bahia categoria de província do Império. Passava então a ser governada por um presidente nomeado. Alguns setores da opinião pública, no entanto, não escondiam o desagrado e a decepção que sentiram com o regime monárquico centralizador, instaurado após a Independência. Com isso, muitas manifestações foram registradas, a exemplo da chamada “Mata Maroto”. Ao saber da renúncia de D. Pedro I, a população passou a exigir também a expulsão dos portugueses. Os movimentos federalistas se expandiram e forçaram a adoção do Ato Adicional de 1834, que permitia maior autonomia às províncias. Outra manifestação que indica a instabilidade geral desse período foi a Cemiterada, que constituiu na quase destruição de um cemitério, onde hoje está o Campo Santo.
    Esperava-se que o fim da monarquia só ocorresse após a morte de D. Pedro II, venerado como “sábio e homem bom”. Mas no conjunto de repetidas crises militares, os dois partidos, o Liberal e o Conservador, não conseguiram soluções para os problemas criados com o esfacelamento do sistema escravocrata. Precipita-se, então, o movimento republicano, e de 15 para 16 de novembro de 1889 foi proclamada a República dos Estados Unidos do Brasil, com total adesão da Bahia.

Fonte: Governo da Bahia